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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Personagem: A Menina

Como esquecer a Menina sem nome, que surge em O amante, de Marguerite Duras e que teria sido inspirada na mãe da própria autora? A garota que conhece o sexo, mas não o amor. Trajada com suas incongruências, ela junta um vestido de seda já usado, com sapatos de lamê dourado, sapatos “de noite enfeitados com pequenos strass”, e um chapéu, “masculino com as abas retas e lisas, um feltro macio cor de pau-rosa com uma larga fita preta” o que lhe empresta ambigüidade e ousadia: “nenhuma mulher, nenhuma moça usava chapéu masculino na colônia. Nenhuma nativa tampouco”. Com eles, ela constrói uma imagem imagem híbrida, só sua. E o chapéu é um ponto importante nesta construção, pois, a narradora deixa claro, quando ela pega o chapéu, não me separo mais dele, eu o tenho, tenho esse chapéu que me faz sentir inteira com ele, não o deixo mais. Quanto aos sapatos, deve ter sido meio parecido, mas depois do chapéu. Eles contradizem o chapéu, tal como o chapéu contradiz o corpo franzino, portanto são bons para mim. Também não os deixo mais, vou a todos os lugares com esses sapatos, esse chapéu, na rua, toda hora, em todo lugar, vou à cidade. Num fluxo de consciência, pesado de recordações, mas propositalmente destituído de afeto, Marguerite Duras mostrou que era possível atualizar o nouveu-roman e ganhar o prêmio Goncourt de 1984, e as listas de mais vendidos, ao mesmo tempo.

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